Desde cedo que me lembro de fazer voluntariado.

No 9ºano os Professores de Religião e Moral criaram um clube que era o “+100%” e convidaram alguns alunos para fazerem parte. O objectivo do clube era, numa hora de almoço de um dos dias da semana, oferecer o nosso tempo a melhorar a escola, a ajudar na integração de alguns alunos com dificuldades, a fazer campanhas de sensibilização para alguns temas específicos, etc.

No 12ºano, tivemos pela primeira vez uma disciplina chamada “Área Projecto”, onde tínhamos de criar um projecto, colocá-lo em prática e, no final do ano, apresentar os resultados. O meu grupo decidiu ir ao infantário social ao lado da escola e potenciar experiências científicas aos mais pequenos.

Não sei precisar quando mas, por volta dos 18 anos, inscrevi-me numa associação e comecei a fazer visitas a crianças institucionalizadas. Todos os Sábados, depois de almoço, lá ia eu ter com eles. Normalmente em equipa, criávamos dinâmicas e levávamos actividades para fazer. Depois mudaram-me de instituição para uma com crianças mais pequeninas e comecei a ir sozinha, dar colo. E o que eu gostava de ir. Era, emocionalmente, intenso, mas eu vinha de lá contente por ter contribuído com aquela hora e meia de brincadeiras e afecto.

Entretanto a faculdade começou a exigir mais de mim ao mesmo tempo que o voluntariado deixou de ser tão simples burocraticamente e, de forma natural, deixei de ir.

A questão de fazer voluntariado sempre foi importante para mim. Eu sentia-me útil e feliz por poder contribuir com alguma valência minha para o bem-estar de alguém. Lembro-me que, enquanto criávamos a empresa de Cardiopneumologia e fazíamos o plano de negócio, tínhamos imensa dificuldade em estipular valores. Para nós era tão importante possibilitar a realização de exames de diagnóstico ao domicílio, a pessoas com dificuldades de mobilidade ou com poucas posses, que definir um valor era estranho.
Quando apresentamos o plano de negócios a um professor de Economia, disse-nos “Vocês vão fazer um negócio. Não é voluntariado.” E aquilo bateu-me. Sim, era verdade. Criar uma empresa não é o mesmo que fazer voluntariado. Mas estava tão habituada a um padrão, que foi desafiante olhar para números e definir preços.

Quando comecei a fazer acompanhamentos de Doula, sentia-me tão grata por me darem essa oportunidade, que quase tinha vergonha de pedir dinheiro. Era algo que me dava tanto, mas tanto prazer, que na minha cabeça, não era justo ser paga por isso. (Reparem na ideia inconsciente que tinha de que o trabalho é SÓ sacrifício).

Quando comecei a trabalhar por conta própria, há um ano, percebi uma coisa fundamental: o meu tempo é valioso. É mesmo. E isso foi uma das gigantes aprendizagens que tirei desta fase.

Se eu escolho fazer x, mas isso não me dá dinheiro, eu tenho de encontrar y que me dê. Ou seja, eu só posso oferecer serviços e tempo, se tiver fundo de maneio ou um grande mealheiro. Como não é isso que acontece, eu tenho efectivamente de pedir um valor de troca pelo que faço. E isto está completamente integrado em mim. É tranquilo para mim, hoje em dia, pedir um valor. Eu própria reconheço o valor do que faço, como podia não pedir?

O que trago hoje aqui é outra questão, consequência disto.

Nos acompanhamentos que faço durante a Gravidez e Parto há uma ligação tão grande, partilha tão íntima, tanto carinho e crescimento que é desafiante abrir mão depois. Depois nasce a mãe, nasce o bebé, nasce o pai e a família e como os posso apoiar? A vontade é enorme! Só me apetece ir ter com eles e ficar todo o dia, potenciar que a mãe durma, que a casa fique organizada, que o pai espaireça. E posso fazer isto em algumas horas da minha semana, mas, mais uma vez, há contas para pagar. Para oferecer esse tempo, preciso que o resto do tempo seja lucrativo, produtivo e pago.

Às vezes dou por mim a perguntar-me “É possível ter uma manhã por semana para dar este apoio de forma gratuita?” Provavelmente sim. Mas, enquanto me adapto a esta vida de trabalhadora por conta própria, tenho de aceitar as propostas que me surgem, os pedidos que me chegam e as oportunidades. E no meio disto, como não há ordenado fixo, há uma grande tendência para querer/ter de trabalhar muito mais porque o trabalho é, geralmente, proporcional ao rendimento. E no meio deste limbo, sinto-me, por vezes, insuficiente para apoiar tudo quanto queria. Todos quanto queria.

Há momentos em que apetece ser polvo e deitar uma perninha para cada lado. Chegar ao máximo que puder. Mas sei que não é real. Sei que é preciso ter estrutura, cuidar de mim primeiro, sentir-me plena, bem, íntegra, para poder ajudar e cuidar dos outros. E isto para mim é sagrado. Conheço os meus limites, sei quando estou a dar mais do que aquilo que posso e sei como voltar a equilibrar-me e a nutrir-me.

O tempo é um desafio porque corre sem parar. De repente é final da semana e já passou. E a vida é demasiado preciosa para ser desperdiçada. É um desafio constante perceber onde gasto energia, tempo e dinheiro para poder ir ajustando e melhorando, cada vez mais, a minha vida e com isso, tornar-me mais disponível. Às tantas resume-se tudo a gestão de tempo, a prioridades e a aceitação da minha condição humana (e não super-mulher).

Uma coisa é certa, tudo o que faço actualmente dá-me tanto prazer e está tão alinhado com quem sou, que sou mesmo muito grata e abençoada por, ainda por cima, ser remunerada por isso. Tudo o resto, a seu tempo, virá.

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