Por mais empatia que possa criar, nunca vivi um pós-parto. Por mais que possa imaginar, nunca tive horas de privação de sono com um bebé nos braços. Por mais que queira, não posso falar por vocês, que já passaram por isso.
Sei que o pós-parto pode ser maravilhoso e sei que pode ser aterrador. Mais, sei que num minuto é maravilhoso e no minuto seguinte é aterrador. E isto é o que o torna na montanha-russa que é.
Um dia, em conversa com a Satya Kaur, ela dizia-me: “Temos de dizer às mulheres que se vão sentir perdidas. Isso é garantido. Tu, no Pós-Parto, vais sentir-te perdida. E o que fazes com isso? Que ferramentas tens ou podes trabalhar para, nesse momento, lidares com isso?”

A Andreia é uma querida amiga, irmã. Acompanhei-os desde antes de engravidar. E continuarei a acompanhar pela vida fora. Ela quis partilhar a sua experiência e eu sou muito grata por isso!

“O quadro perfeito

Quando se fala em pós parto a maioria de nós imagina uma família penteada e vestida com roupa limpa e engomada, sorridente. Neste quadro o bebé está ao meio, entre pai e mãe, e nenhum destes tem olheiras. Um retrato de felicidade e plenitude. É o quadro perfeito.

Ora, eu descobri que na minha casa, e pelo menos nas casas das amigas próximas, este quadro é só uma fotografia de uma qualquer publicidade a hospital/maternidade.

Na minha casa, sorriamos sim, sentiamos felicidade sim, mas as olheiras chegavam ao chão, a roupa não estava engomada, e também pouco importava pois andava sempre com a mesma, e o bebé no meio dos pais é uma realidade mais literal que poética.

A relação

A relação entre pai e mãe recém nascidos eles também, é posta à prova sem intenção. Sim sem intenção. Ninguém consegue adivinhar, ou preparar-se, e muito menos desejar o resultado prático na sua personalidade, devido à privação de sono e intensa responsabilidade.
As rotinas que antes mantinham o casal em contacto, unido, alinhado e actualizado um sobre o outro acabam. PARA SEMPRE!
É que o início de tanta coisa, é também o fim de outra tanta.
Algo que ficou claro para mim foi que se uma relação não estiver firme, a vinda de um filho vai torná-la ainda mais frágil. E foi assim que percebi o porquê de tantos casais se separarem nos primeiros meses de vida dos filhos, e mordi a língua, por, no passado, de forma descontraída e ignorante ter tecido comentários de espanto e incredulidade sobre essas mesmas separações.
Tudo isto me pôs a pensar nas histórias das “mulheres que engravidam para apanhar o homem” e até me fez doer o estômago. Realmente a falta de experiência e conhecimento são conselheiros muito fracos.

A solidão
Desde cedo que sei, porque o sinto de vez em quando, que estar aqui, viver, é um acto solitário. Todos nós já passamos fases em que mesmo rodeados de pessoas não deixamos de sentir a velha amiga solidão. A diferença está, a meu ver, em viver essa solidão sozinhos ou não. Por causa disso podem pensar que ter um bebé acaba com essa questão, porque sozinha não se está mais. Pois, mas é aí que se enganam. Tenho 34 anos e o pós parto foi a altura mais solitária e só, de toda a minha curta vida (talvez não tão curta já, vá se lá saber).
Tinha o meu filho e o meu marido, e entre noites mal dormidas, lágrimas hormonais, e uma lista de dúvidas iamos crescendo como pais e construindo o nosso quadro perfeito. Mas o pai tem uns dias de licença e por isso voltou a trabalhar. E eu fiquei com o meu filho, eu e ele, minutos após minuto, hora após hora (esqueçam os dias, com um recém nascidos todo o tempo se conta no máximo em horas). Eu e aquele nenuco, novo na minha vida e que sem saber como já amava incondicionalmente. Eu e o bebé que decidi ter, e que precisava de mim para sobreviver. Eu e as horas para mamar, as fraldas para limpar, o sono para fazer e uma casa para gerir.
Desejava intensamente que o maridão voltasse para casa todos os dias. Não, não era pelo cansaço, as hormonas trataram de me manter e energizar. Eu queria desalmadamente falar e ouvir um adulto. É que o meu querido filho nesta altura nada dava, apenas recebia.
E no meio desta aventura pus-me a pensar onde andariam todos os adultos que costumavam fazer parte da minha vida.
Ah a ignorância e a falta de experiência outra vez a pregar partidas…
Lembrei-me que eu, e talvez a sociedade em geral, já que apre(e)ndi isto em algo lugar, tem como hábito o ir visitar a mãe mal o bebe nasce, parabenizar os progenitores, presentear o recém nascido, ir embora e nunca mais voltar até a criança ter dentes. Então os meus amigos não pais, como eu um dia, fizeram a visita da praxe e nunca mais os vi (quer dizer, alguns nem isso, optaram pelo telefone). Os que já eram pais estavam ocupados com as suas próprias crianças.
E eu continuei pacientemente na minha solidão, à espera que o marido chegasse e que o filho crescesse.
O tempo
Outro facto de que me dei conta foi a expectativa versus realidade da duração do pós parto. Na minha cabeça o pós parto estava ligado à soma de, no máximo, 6 meses. Mais ou menos 180 dias e as hormonas recolhem, a criança já tem a espinha forte, a moleirinha mais pequena, e claro dorme. Pois, sim, mas não. No meu caso, 1 ano depois as emoções eram tão intensas que cheguei a suspeitar de uma depressão pós parto tardia. Na verdade, as minhas emoções queriam apenas ser libertadas. Pois com a ideia de um pós parto de 6 meses, pressionei-me a criar e realizar uma data de coisas. Abusei de mim com base numa ideia e nem dei conta, pois na verdade ainda andava (ando) em piloto automático.
Amigas minhas, passados 3 anos, dizem-me que só agora estão para as curvas, outras houve realmente para as quais 6 meses foram suficientes. É importante para nós mães, deixarmos de lado as convenções sociais, só assim poderemos aproveitar o processo, o nosso processo.
Neste momento, quase um ano e meio depois, posso afirmar em consciência que o pós parto está a começar a chegar ao fim, mas não me atrevo a marcar-lhe data de término, permito-lhe, assim como me permito a mim, fazer como lhe aprouver.

O Eu

Durante o pós parto fui-me apercebendo dos desafios, e com honestidade assumo o Desafio. Este, o GRANDE, está relacionado com a liberdade. Durante anos trabalhei para me libertar “do que esperam de mim”, “do que pensam de mim” e portanto, passei a sentir liberdade para fazer como queria e ser o que sou, quando e como quero. Agora, e isto já não tem a ver com o pós parto, mas sim com a maternidade para mim, provocou-me a redefinir o conceito de liberdade.
Não, já não durmo quando e o que quero. Não como às horas que quero, onde quero. Tenho de escolher onde vou tendo em conta uma data de detalhes que visam o acolher de uma criança. Não tomo decisões de forma impulsiva, porque podem afectar a minha família. Enfim, sabem como é.
Por outro lado, descobri um novo eu no papel de mãe. Sempre acreditei que ser mãe ia dar-me a oportunidade de ser melhor, de me superar, de concretizar e de querer viver intensamente. E isso tudo se tornou verdade.
Sei que um dia o meu filho, assim como eu, vai seguir, de forma independente. Mas eu continuarei a ser mãe, e é neste papel, que ganho e ganharei a cada dia mais experiência e com sorte menos ignorância.

Andreia

Namdeep Kaur”

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