Há 15 dias atrás estava eu de coração aos pulos com a aproximação de mais um acompanhamento de parto enquanto doula e amiga e irmã de coração. 
Estava desejosa que chegasse a hora em que seria chamada e que iria a “voar”, maravilhada com a vida e com o milagre do nascimento, encantada pelo processo e pela partilha deste momento. [Mal sabia eu a transformação que este parto me faria.]
O trabalho de parto iniciou-se subtilmente e as horas antes ao nascimento do bebé S foram passadas entre caminhada, conversa, partilha de receios e dúvidas, partilha de poder e esperança.
No dia seguinte, pouco depois de acordar, recebi um telefonema de que os pais iriam ao hospital para garantir que estava tudo bem uma vez que houve um sinal de alerta.
Entrei em modo alerta também e fui para a maternidade na esperança de me cruzar com eles antes de entrarem. No caminho a minha mente negativa alertava-me cada vez mais e fui lidando com ela para que, quando estivesse com os pais, fosse possível contagiá-los com amor e protecção e não com adrenalina e medo. Entoei mantras todo o caminho para quebrar com aqueles pensamentos negativos e quando os vi, UFA. A sensação foi: “Está tudo bem. De facto. Aconteça o que acontecer.”
Abracei-os antes de entrar e fui para a sala de espera. Naqueles minutos, senti cada respiração minha e olhei para o céu. Pensava “Que lindo dia para nascer, baby S.” 🙂
Achei que, com o sinal de alerta que tinham tido, seguiriam para parto intervencionado com certeza. E admito que a hipótese de ser Cesariana me passou pela cabeça.
O pai avisou-me que a equipa não se tinha mostrado muito preocupada, que o S. estava bem e portanto iriam aguardar, sob vigilância, que o trabalho de parto evoluísse. “Uau. Agora sim. Está tudo bem. Podemos todos respirar de alívio.”
Vim para casa, atenta, entregue. Ia perguntando como estava a evoluir e tudo evoluía normalmente. Sabia intrinsecamente que, assim que a mãe se tranquilizasse e “recuperasse” do susto, assumiria a responsabilidade do seu parto e entregar-se-ia ao processo. 
“Ela está bem, confiante ?”
“Yes, I am. I am. Iam.” [Depois desta re-confirmação não havia a mínima dúvida! (Não me vou esquecer nunca desta tua frase, querida irmã! Tão grata!!!)]
Às 23h recebo mensagem a dizer que já tínhamos connosco o bebé e, no meio da festa de aniversário do G., saltei do sofá, bati palmas, ri-me, ri-me, ri-me! WIIIIII! (Grande festejo de boas vindas ahn S.? ;))
No dia seguinte de manhã falei com a querida recém-mamã e soube que o S. tinha nascido de Cesariana. Não sei precisar agora o que senti, mas lembro-me de ficar ligeiramente surpreendida e ao mesmo tempo não.
Ouvindo o relato do parto, uma coisa tive a certeza absoluta – o pequeno S. veio ajudar-me a curar a MINHA ferida  – a minha Cesariana! Emocionei-me muito.
Senti intrinsecamente que foi o S. quem escolheu esta forma de nascer. Assim como fui eu quem escolheu a minha cesariana. Através da minha querida irmã do coração, eu perdoo a minha querida mãe. Fui eu quem escolheu.
Como disseste querida A. se não houvesse cesariana se calhar muitas almas que aproveitam esta altura para vir, não viriam.

E ouvir esta mãe partilhar algumas dificuldades do pós-parto fez-me cair a armadura. A minha mãe não fez mais nem fez diferente porque não pode. Com anestesia geral, na altura, num pós-parto que foi de barriga aberta, ela nem conseguia estar acordada nem lidar com as suas dores quanto mais ter uma bebé recém-nascida ali ao lado. Realmente, era preciso que alguém apoiasse.

De repente, não há culpa associada à minha mãe, não há zanga. Há gratidão! Há gratidão pelo facto da minha mãe me ter ajudado a cumprir com a minha escolha. Eu não sei porque a escolhi, mas eu confiei na minha mãe para que a tornasse possível. Assim como o S. durante o trabalho de parto que estava a decorrer, gritou “Socorro mãe, ajuda-me. Não consigo sozinho!” Foi e é um trabalho de equipa. A mãe de um lado faz o seu trabalho e o bebé do outro faz o seu. E se um deles escolhe fazer de outra forma, a dança acontece. A confiança integra-se e concretiza-se. 
Uffff. É intenso 😀
[Quanta gratidão querida irmã por te ter acompanhado neste processo. E quanta gratidão pequeno S. pelo que me ensinas!]
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