Como eu descobri o meu propósito ou, melhor dizendo, como eu vou descobrindo em cada dia o meu propósito.

Agora, olhando para trás, houve ao longo de toda a minha vida sinais claros do que vim cá fazer.

Em criança, as minhas brincadeiras preferidas eram ser mãe. Andar com bebés ao colo, de preferência mais do que um ao mesmo tempo. Passava horas com eles. A trocar a fralda, a dar colo para adormecer, a dar maminha, a passear no jardim, a dar papas, etc etc. Quando brincava com barbies, fazia sempre uma família completa e depois a barbie ia ficando grávida, depois tinha o bebé, depois entrava a Shelly ou o Tommy (que eram as crianças do mundo Barbie) e depois ela voltava a ficar grávida e a ter outro bebé e por aí fora.

Cresci e sempre fui deslumbrada com bebés. Onde havia um bebé, os meus olhos e ouvidos eram imediatamente chamados, e nada mais importava se não aquele ser. Um mega mega filtro.

Depois comecei a notar as mulheres grávidas. A deixar novamente os meus olhos prenderem-se naquela barriga que por mim passava e a minha empatia com o bebé in útero era instantânea e natural.

Fiz voluntariado em algumas casas de acolhimento temporário infantil simplesmente para dar colo. Era o que mais me fazia sentido e me era, intrinsecamente, pedido. “Abraça-os.”

Depois a minha irmã engravidou e, quando me disse, choramos as duas de tamanha felicidade. Eu sentia que nada podia correr mal no meu mundo. Nunca mais ficaria chateada, nem triste, nem desmotivada com nada. Simplesmente porque o meu sobrinho estava na barriga da minha irmã e ia ter um bebé ali, tão perto, tanto tempo seguido.

Chamava ao meu sobrinho “Feijãozinho” desde que soube da gravidez e falava muito com ele. Quando a minha irmã entrou em trabalho de parto, dei saltos de alegria às 04h da manhã e andava a correr pela casa feita doida. Tinha 20 anos.

Fui com a minha irmã, cunhado e mãe para o hospital, achando que ele ia nascer logo. (Não fazia ideia na altura que os trabalhos de parto podiam demorar horas.) No hospital perguntaram quem ficava com a minha irmã e, para meu espanto, nem o meu cunhado nem a minha mãe “quiseram” ficar. Perguntei com toda a humildade e surpresa à minha irmã se queria que ficasse eu. E fiquei. O meu sobrinho nasceu 10 horas depois e foi estrondosa a experiência :’) Sei que, nesse momento, algo fez um click em mim.

Mais tarde, num encontro de Networking a que fui com a minha empresa de Cardiopneumologia da altura, conheci uma Osteopata que nos deu um cartão de uma amiga. Dizia “Doula”. Na altura, não sei como, a palavra não me era desconhecida e deixei sair um suspiro quando vi o cartão com a palavra “Doula”. Disse-lhe: “Ah, isso é tão bonito!” E ela respondeu-me: “E o que tu fazes também.” Prontamente disse-lhe: “Hm….não acho assim tanto. Não tanto quanto ser Doula.” Tinha 22 anos.

Aquela minha resposta ficou a ecoar em mim. Numa altura que tinha acabado de abrir uma empresa minha. Que tinha investido dinheiro, tempo, energia. Tudo estava ali. E eu estava  dizer que havia algo que eu queria mais do que aquilo?!

Comecei a pesquisar sobre Doulas, sobre o que faziam. Comecei a descobrir estudos e artigos. Lembro-me bem de nas pausas do trabalho, procurar artigos e fazer resumos. Lembro-me perfeitamente do meu espanto com tudo o que descobria. Partilhava efusivamente com a minha amiga e sócia. Sentia um fervor dentro de mim. Um entusiasmo. Uma alegria. Todo o meu corpo vibrava quando lia, escrevia, pesquisava sobre aquilo.

Encontrei a Rede Portuguesa de Doulas em Outubro e vi que iniciava um curso em Novembro. Como assim??? Que sintonia perfeita! Escrevi à Luísa a perguntar condições, preços, se podia ser doula sem ter base nenhuma. Nem mãe era!

Quando ela me respondeu, eu chorei. Estava no trabalho e comecei a chorar. Liguei imediatamente ao Gonçalo a chorar e disse-lhe “Eu tenho de fazer este curso. Não sei como vou ter dinheiro para pagar, nem para ir a Évora todos os meses. Não faço ideia de nada, só que tenho de ir.” 🙂 E fui. E aí a minha vida encaixou-se. Tudo o que aprendia dava-me uma energia, uma vontade, uma motivação de mudar o mundo! Toda a cura que fiz durante a formação fez nascer a mulher que sou. Transformei-me completa e profundamente.

Na formação de doulas, uma das colegas era professora de Kundalini Yoga. Eu que, praticava Yoga já há 3 anos e, era super defensora da “minha linha de Yoga”. Quis saber as diferenças, como era o que ela fazia, partilhar o que eu fazia. Um fim de semana ela propôs ao grupo uma meditação antes de iniciarmos as aulas. E eu senti, pela primeira vez de forma consciente, a minha alma. Eu arrepiei-me. Eu chorei. Eu sorri. Eu senti o meu amor por mim própria. Tão forte! Tão honesto.

Experimentei mais uma aula fora do curso. Na altura fui com  o Gonçalo e sei que saímos da aula os dois a perguntar-nos “O que é isto? Que energia!! Podemos ir correr a maratona sem nos cansarmos!” Estavamos tão bem. Tão bem dispostos. Tão alegres. Com tanta vitalidade!! Foi aí que comecei a praticar Kundalini Yoga. Tinha 24 anos.

O ano passado, no Encontro Nascer em Amor, em Cascais, estive o dia todo a ouvir palestras, apresentações, partilhas, testemunhos. Estava sozinha e mal conhecia outras doulas. Fui almoçar sozinha, conversei com o Gonçalo por telefone e disse-lhe “Sabes a sensação de não haver outro sítio onde eu possa estar agora? Não há nada mais que eu queira fazer do que estar aqui!” No final do dia, alguém pediu o microfone e começou por apresentar-se “Sou Professora de Yoga para Grávidas, tenho 5 filhos”. A minha alma identificou-se! “É isto! Eu sou Doula, eu quero ser Mãe e eu quero dar aulas de Yoga para Grávidas!”

Iniciei a formação de Professores de Kundalini Yoga o ano passado e hoje em dia, eu trabalho exclusivamente como Doula, como Professora de Kundalini Yoga e estou em Pré-Concepção, a preparar-me para conceber. Tenho 27 anos. 😀