Ainda antes de fazer o teste de gravidez, pensava que partilhar com alguém o atraso de 2 dias da menstruação podia ser “mau agoiro”. Não deixei que este medo fosse maior do que eu e partilhei na mesma com uma pessoa muito querida. Até porque vivi cada momento com tanta intensidade e lembro-me tão bem de, cada vez que ia à casa de banho e não havia menstruação, sentir-me radiante e tão alegre!

Quando tivemos a confirmação de gravidez a felicidade foi sempre crescendo e não havia mesmo espaço para o medo. Conheço as estatísticas e a fragilidade que é um início de gravidez, mas também sabia e sentia todo o trabalho que tinha feito para preparar este momento e, sinceramente, não me fazia qualquer sentido perder o bebé, ou que o bebé quisesse ir embora.

As semanas foram passando e cada vez que completava mais uma era uma conquista.

Quando estava com 10 semanas houve um dia, uma Terça-feira, em que o medo veio de uma forma gigante, que eu não estava minimamente à espera. Fui dar aula de Yoga a Grávidas e falou-se da perda gestacional. Eu que já não estava a 100%, fiquei ainda pior. (Claro, as situações/conversas/pessoas vêm ter connosco exactamente quando precisamos delas. Sei bem.)

Uma aluna, grávida pela segunda vez, contava que descobriu que o seu primeiro bebé tinha morrido pelas 8 semanas e só com 12 é que souberam através de ecografia.

Dei por mim a contar as grávidas que estavam na sala e a calcular probabilidades – “ora bem se somos 5 e 2 delas tiveram perda gestacional, não haverá mais nenhuma daqui!” (As estratégias mentais que arranjamos para nos apaziguar, não é?)

Depois disso continuou a angústia e o medo de perder. O momento crucial do dia foi quando, enquanto jogava xadrez e perdia o jogo, ouvi-me dizer ao meu adversário de 6 anos “Não preciso que tenhas pena de mim. Não gosto de perder, mas sei perfeitamente lidar com a perda.” E quando acabo a frase tudo ecoa dentro de mim e penso “Bolas!! Não acredito que vou passar por isto! Porque acabei de dizer isto?? Aiiiiii”

Bom, segui para outra aula de Yoga e tudo se tranquilizou quando me ouvi ler um excerto da aula “A humildade é a capacidade de permitir que a sabedoria nos guie. Deixa o ego ir. Abre o coração para que sintas a força de Deus.”

E quando acabei estas palavras senti em mim que tudo estava certo. Independentemente do resultado final.

Senti a minha humildade, deixei o meu ego ir, confiei no meu bebé e na sabedoria dele e abri-me para o melhor.

Depois deste dia, não mais senti medo de perder o meu filho. Porque independentemente do que acontecer, vivo um dia de cada vez, confio imensamente na vida e sei que quer o melhor para mim. Deixo-me guiar e vou seguindo.

Aproveitando cada momento, cada mão na barriga, cada pensamento de amor, cada ecografia, cada conversa que o Gonçalo tem com o nosso bebé. E assim seguimos com amor e fé.

[imagem linda retirada de https://www.mamanatural.com/pregnancy-week-by-week/10-weeks-pregnant/]