“Estou grávida! Devia estar feliz mas estou confusa…”

“Reconhecer, aceitar e acolher esta ambivalência é importante, uma vez que tudo aquilo a que resistimos, persiste, voltando mais tarde a causar transtornos. Muitos anos atrás, Freud constatou que a incapacidade de tolerar a ambivalência se encontrava na raíz da neurose.

O reconhecimento e a aceitação dos vários sentimentos que experimentamos sem emitir juízos possibilita-nos responder melhor aos desafios, de formas que reflectem os nossos valores mais elevados.” Deepak Chopra

A ambivalência, na gravidez, na maternidade e na vida, é natural.

É natural ficar muito feliz com a notícia de uma gravidez (principalmente se é desejada) e, ao mesmo tempo, apreensiva. É uma mudança muito grande. Há uma grande responsabilidade associada, há uma nova dinâmica familiar que se cria. Talvez haja mudanças físicas e logísticas que são necessárias fazer – mudar de casa, fazer obras, mudar de trabalho, deixar de trabalhar, etc, etc

A forma como encaramos a ambivalência é, de facto, uma das chaves para o nosso bem-estar emocional e mental.

Quantas vezes assistimos a partilhas de emoções, de dúvidas ou de medos e, só através da escuta, se dá uma mudança gigante no nosso interior. Porquê? Porque nos identificamos. “Afinal não sou a única a sentir isto, a pensar aquilo…” Os círculos de partilhas são tão benéficos por isto mesmo.

Acho que somos prós em tapar emoções, em manter as dúvidas bem caladinhas no nosso interior para não termos de lidar com os papões do “somos maus pais” “não estamos preparados para ser pais” “estou a fazer mal ao meu bebé quando penso que a vida sem ele é mais fácil” ou tantos outros…

O que não nos damos conta é que quanto mais tapamos os nossos sentimentos e silenciamos as nossas dúvidas, mais estes papões crescem dentro de nós. E há realmente uma altura em que podem ter um tamanho tal que impõem muito respeito.

É possível para ti olhar para o que sentes sem fazer qualquer juízo?

No livro do Deepak Chopra há um exercício que me faz todo o sentido:

“Reserva alguns minutos para ponderar os vários sentimentos, preocupações e questões que se colocam relativamente a tornares-te mãe/pai e descreve-os num diário:

  • Sentimentos/questões agradáveis
  • Sentimentos/questões desagradáveis”

O exemplo que é dado no livro é:

“Reacções da mãe:

  • Estou mesmo entusiasmada em relação a tornar-me mãe.
  • Não sei decidir durante quanto tempo devo deixar de trabalhar.
  • Gosto de me concentrar em consumir alimentos saudáveis.
  • Estarei a engordar demasiado?

Reacções do pai:

  • Mal posso esperar por ser pai e partilhar o meu amor.
  • Preocupa-me que a casa seja demasiada pequena para acolher toda a família.
  • Sinto-me mais ligado do que nunca à minha mulher.
  • Sinto-me pressionado pelos custos de criar uma família.”

É engraçado ver como, quando reconhecemos e temos coragem de partilhar com alguém os sentimentos/questões desagradáveis, há uma tentativa, quer nossa quer de quem nos ouve, de reverter.

Por exemplo, lembro-me de uma grávida partilhar comigo que disse à mãe que estava cansada dos enjoos. E a mãe respondeu imediatamente “Foste tu que escolheste estar grávida”. Sim, mas estar cansada dos enjoos não invalida a vontade que tem de ser mãe nem a escolha que fez. Ela estava simplesmente a partilhar o que sentia. Isto é apenas um exemplo, mas acontece muito! E quem ousa verbalizar algo do género, começa a preferir ficar calada com medo de repreensões.

Por isso é tão útil e benéfico ter uma doula que nos acompanhe. É esta pessoa neutra que ouve o que dizemos e acolhe. Muitas vezes basta alguém que ouça sem dar resposta para haver um alívio imediato. A empatia é realmente valiosa 🙂

Se te fizer sentido, aproveita o teu diário de gravidez ou cria um agora, caso ainda não tenhas, e escreve os teus sentimentos. Os mais agradáveis e os mais desagradáveis. Como Deepak Chopra sugere, faz alternado. Esta é também uma forma de não valorizar demais nem uns, nem outros. E mantemos o equilíbrio entre a positividade e a negatividade.

Espero que este texto te ajude a apaziguar e saber que é natural a ambivalência. A vida é uma polaridade. Faz parte da nossa natureza. Quanto mais cedo aprendermos isto, mais fácil é lidarmos connosco mesmas e com os outros. Com compaixão e compreensão.