Quando a ideia de criar esta rubrica surgiu, houve nomes que me chegaram imediatamente. Ou por já ter tido algum contacto prévio, por me identificar com as partilhas e estilo de vida ou por acompanhar regularmente nas redes sociais.
Desde o momento em que escolho alguém para entrevistar, até a entrevista aparecer aqui e ser partilhar com vocês, muita coisa acontece. A primeira é logo a dúvida “Será que me vai responder?” “Será que vai aceitar?”
E depois a resposta vem e é positiva. E é calorosa e carinhosa. E depois vêm as respostas e dou conta que a partilha nesta rubrica é mesmo algo muito pessoal e íntimo e que sou muito privilegiada por ter a confiança das pessoas que aceitam partilhá-lo.
Falarmos aqui de gravidezes que não chegaram ao fim ou de descolamento de placenta que não foi mais do que um grande susto vai mesmo de encontro ao propósito desta partilha. Abrirmos espaço de conversa para falarmos, entre mulheres, sobre estas questões.
Porque acredito tanto que a partilha pode ser tão empoderadora, curativa e transformadora.
Muito muito grata Maria Ana, por ter aceite este convite.
maejavai2
“As tuas gravidezes foram planeadas? Como te preparaste para a Concepção? 
Engravidei da primeira vez de forma planeada mas infelizmente perdi o bebé. Da segunda vez foi ainda mais planeado. Contei os dias e os meses e engravidei da Leonor 6 meses depois. Ainda assim foi uma surpresa.
O Zé Maria e a Luísa não foram tão planeados mas estava à espera deles e vieram na altura certa.
Como reagiste quando soubeste que estavas Grávida? A quem contaste?
Fiquei sempre feliz. Agradecida. Algumas vezes apreensiva. Contei aos meus pais, sogra, irmãos e cunhados. E, claro, a 2 ou 3 amigas.
Contaste logo ou resolveste esperar? 
Da primeira vez contei logo. Depois fomos guardando para nós pelo menos até às 8/9 semanas.
Como viveste as tuas gravidezes? 
Todas as gravidezes foram diferentes. Felizmente nunca tive nenhum problema de maior. Tive as queixas normais das grávidas. Pernas cansadas, desconforto e aqueles receios normais antes das ecografias. Mas regra geral foram 9 meses vezes 3 muito felizes e muito vividos. É uma altura em que me sinto, apesar das queixas, uma privilegiada.
Da Luísa tive um descolamento de placenta às 10 semanas e 10 dias de repouso mas depois felizmente correu tudo muito bem até ao final.
O que sentes que as gravidezes te trouxeram? Alguma oportunidade especial?
Trouxeram um sentimento incrível de poder. Poder gerar e fazer crescer um ser humano em nós é inacreditável. Algumas vezes parei para pensar em como seria possível. Depois o fazer nascer. Estarem ali (ou aqui) a receber tudo e a sentir tudo para 9 meses depois, e a partir de mim, nascerem. É incrível. A grande oportunidade são eles. Através deles e a partir deles ser uma pessoa melhor e, acima de tudo, mais agradecida.
 Como te sentiste enquanto estavas grávida?
Na primeira gravidez vivi na inocência das primeiras coisas que se vivem pela primeira vez. E foi bom e estranho. Foi estranha a revolução hormonal e as mudanças no meu corpo. E foi muito bom sentir a minha filha crescer e mexer-se e viver em mim.
Na gravidez do Zé Maria já esperava algumas coisas e ainda assim tudo foi novidade.
Ele mexia-se tanto!
A gravidez da Luísa foi a que mais me custou. Por ter os manos 2 e 4 anos. Mas vivi-a com muito amor e muita expectativa.
 Fizeste alguma preparação para o parto? Fala um bocadinho sobre isso.
Só fiz na primeira gravidez. Confesso que gostei mas na altura do parto não pensei em nada. Foi a minha primeira grande lição como mãe. Confiar. Seguir instintos. Ouvir o coração.
Que conselho podes dar a outras mulheres grávidas sobre a preparação para o parto?
Acho que a preparação mais importante é a interior e mesmo assim é tudo tão imprevisível que também temos que nos preparar para eventualidades e gerir ao máximo as nossas expectativas.
Alimentação (que nunca fui exemplar), pensar naquilo que idealizamos e falar sobre isso logo desde o início com o médico.
Como te sentiste com os teus partos? Foram o que tinhas idealizado? Se não, queres partilhar um pouco sobre o que correu menos bem?
Não fazia ideia que queria tanto ter um parto normal até ter. Não tinha nenhuma visão nem nenhuma vontade especial. Sempre achei que estava nas mãos de Deus e da sorte. Como os meus filhos nasceram num hospital privado o meu medo era pagar por uma cesariana.
 A Leonor nasceu depois de me rebentarem as águas e tudo muito rápido e bom e achei tudo tão perfeito e que o meu corpo tinha nascido preparado para fazer nascer bebés. O segundo foi o meu parto mais pacífico. Induzido às  40 semanas mas fui para o hospital já com o trabalho de parto em andamento e ele nasceu tão bem e tão tranquilo. O parto da Luísa, também induzido às 40 semanas + 1 dia, foi maravilhoso e acabei por ser eu a tirá-la directamente para o meu colo. Mas foi o meu único bebé que senti que nasceu cedo demais. Que demorou muito, cá fora, a sair da barriga. Mas o parto foi incrivelmente emocionante.
Não mudava muita coisa dos três partos que vivi. Tenho muita sorte.
Tens alguma visão sobre o Parto em Portugal? Há alguma coisa que consideres que pode mudar ou ser melhorada?
Acho que as mães devem ser ouvidas. As suas dores e as suas vontades. Tenho muito boa impressão dos médicos e enfermeiros com quem tive a sorte de me cruzar e de a minha médica me ter dado sempre ouvidos. Mesmo quando chorei por medos e sensibilidade desmedida, mas sei que não é sempre assim. Que às vezes se seguem caminhos mais fáceis e nascem bebés com mães fragilizadas e às vezes incompletas quando é tão importante iniciar o papel de mãe com confiança e alegria. Acima de tudo alegria.
Acho que as mães merecem ter o parto que desejam e é muito difícil quando isso não acontece,  seja por que motivo for.
É importante abrir o jogo e se for preciso mudar de médico. Quando estamos vulneráveis temos tendência em aceitar porque confiamos. O nosso médico tem que ser o espelho e o principal apoiante das nossas vontades.”
maejavai5