O impacto da forma como se nasce

A semana passada fiz um vídeo em directo no Instagram e no Facebook sobre este mesmo tema. Sinto que é novo para muitos e, para mim, é mesmo importante partilhá-lo convosco.

Porque o parto pode ser traumático para a mulher (e sabemos que muitas vezes é!) mas também pode ser para o bebé! E é sobre isso que vou escrever-vos hoje.

O nascimento é um acontecimento que fica gravado na nossa personalidade.

A forma como nascemos, se dolorosa, fácil, suave ou violenta, determina largamente o nosso carácter e visão que temos do mundo.

Tenhamos a idade que tivermos, haverá sempre, uma parte nossa que encarará o mundo através dos olhos de recém-nascido que um dia tivemos.

Perto do fim da gestação, o bebé in útero já tem uma percepção profunda do universo que o rodeia. Não tenhamos outra ideia se não esta!

O momento do parto é o primeiro grande choque emocional e físico prolongado que a criança sofre e que nunca chega a esquecer completamente. Mas o parto não é só dor. Tem também momentos de intenso prazer sensual.

Quando o corpo do bebé é banhado por fluídos maternos e massajado pelos músculos da mãe, há realmente muito prazer e sensualidade. No entanto, quanto mais perto do expulsivo e quanto maior o desconforto intra-uterino criado pelas contracções, maior a dor física e emocional (medo) que o bebé começa a experienciar.

Imaginem só, num momento o bebé está imerso numa piscina quentinha e no momento a seguir é atirado para o canal vaginal onde pode ficar alguns minutos mas também algumas horas.

Há imagens que mostram bebés durante as contracções uterinas e os movimentos fortes que fazem com os braços e pernas tem todo o aspecto de ser reacção à dor.

Só por isto, podemos concluir que o parto é de facto um evento traumático na vida do bebé. A transição do útero para a vida extra-uterina é um marco importante e que deixa memórias (não conscientes) em todos nós.

O momento em que o bebé sai do ambiente escuro, quentinho, com um som conhecido e sempre ligeiramente abafado, onde é constantemente embalado e onde sente sempre a respiração da mãe, o seu coração e a sua voz para um ambiente frio, barulhento, excessivamente iluminado, rodeado por um grupo de estranhos, que o pegam, palpam e examinam, tem de obrigatoriamente deixar marcas. Podem ser mais subtis e suaves ou mais fortes e impactantes.

Não nos podemos esquecer que a mente do recém-nascido está a registar tudo – sensações, gestos, movimentos e até palavras. (Muita atenção ao que dizemos!!) É verdade também que o parto provoca uma espécie de efeito amnésico devido aos altos níveis de oxitocina, mas isso significa apenas que não temos acesso a essas memórias de forma consciente. Não significa, de todo, que elas não estejam lá e não influenciem a nossa vida (padrões, crenças e forma como nos relacionamos).

A forma como a mulher se sente no momento do parto tem uma grande influência na maneira como se vai desenrolar o expulsivo:

  • Se a mulher se encontra descontraída, confiante e desejosa de ter o seu filho
    • Expulsivo: Simples e desprovido de complicações
  • Se a mulher tem dúvidas, preocupações e não sabe muito bem como será na maternidade
    • Expulsivo com mais complicações e dificuldades

O propósito deste post não é, de todo, colocar pressão em nós, mulheres, para termos uma performance XPTO. É apenas e só para tomarmos consciência do efeito que o tipo de parto tem em cada um.

Mais uma vez, acredito profundamente que cada um de nós escolhe a forma como quer nascer e que isso depende de factores físicos, emocionais sim, mas também espirituais. O que vimos cá fazer? Que competências precisamos trabalhar? Que padrões vimos curar?

Por isto, tentem olhar para cada tipo de parto e o que pode impactar na nossa vida como orientações e guias para entendermos cada vez mais e melhor a nossa própria história, as escolhas dos nossos filhos e de todas as pessoas ao nosso redor.

Ah e dizer-vos também que há formas de minimizar estas crenças limitantes e que nem todos desenvolvemos essas crenças. Depende muito do ambiente que nos acolhe depois do parto, da nossa primeira infância e da forma como nos relacionamos nos primeiros anos de vida.

Olhando agora para cada tipo de parto, vamos ver que padrões/crenças são mais comuns:

  • Parto vaginal, simples, sem complicações
    • Pessoas mais “desempoeiradas”, optimistas e confiantes
    • Activos, sensíveis à presença dos outros, maior rapidez na aprendizagem
    • Se houver corte precoce do cordão umbilical – pode provocar pânico, terror e conexão com falta de ar
    • Para bebés mais sensíveis, mesmo o parto vaginal simples pode desencadear crenças como: a vida é sofrimento, viver é doloroso, sou culpado por fazer a minha mãe sofrer
  • Cesariana
    • Ânsia em relação ao contacto físico
    • Pessoas com mais dificuldade em entregarem-se na intimidade – Uma vez que há privação de movimentos sensuais durante nascimento e estes são os elementos pioneiros que determinam a sexualidade adulta
    • Pessoas com dificuldades em iniciar os seus projectos e actividades sozinhas. Tendem a precisar de ajudar para começar algo ou para avançar. Atitude de espera.
    • Cesariana programada pode trazer crenças como: Eu não sou capaz, Eu não consigo, É difícil decidir, Eu não sou respeitado, Não tenho direito a escolha
    • Cesariana de emergência pode trazer crenças como: Não posso confiar nas pessoas, Pedir ajuda magoa-me, Não consigo concluir/concretizar os meus projectos
  • Parto com fórceps/ventosa
    • Culpa e medo de ferirem quem amam/ ressentimento e raiva
    • A nível físico traz dor de cabeça e enxaqueca e/ou problemas na cervical
    • Gera-se um ciclo na forma como se relacionam: inicia alguma coisa –> estagna –> pede ajuda –> ajuda é dolorosa –> ressentimento –> deixa de pedir ajuda
    • Crenças: Eu causo dor a quem amo, Não sou bom o suficiente, Tenho de estar no controlo, Pedir ajuda é perigoso
  • Parto induzido
    • Não foi tido em conta o seu tempo nem decisão
    • Crenças: Não sei como começar, Não consigo o que quero, Não consigo decidir, preciso que o façam por mim, Não sou respeitado, Preciso de mais tempo
  • Parto demorado (muito tempo no canal de parto)
    • Sentem-se presas, controladas e inseguras
    • Esperam muito para que as coisas na sua vida aconteçam
    • A vida é uma luta e é preciso lutar muito para avançar e ir em frente
    • Pode sentir claustrofobia
    • Crenças: Sou um estorvo, Não consigo o que quero quando quero, Devo apressar-me para não ficar retido, Não posso relaxar, É perigoso ser vagaroso
  • Parto Rápido
    • Tendem para estar sempre a correr
    • Não se preparam com antecedência
    • Crenças: As pessoas nunca estão preparadas para me receber, As pessoas ressentem-se comigo por ser tão rápido, Não sou compreendido/respeitado no meu tempo
  • Pélvicos (Nádegas)
    • Risco ligeiramente maior de problemas com a aprendizagem
    • Teimosos e com tendência para fazer as coisas ao contrário
    • Não costumam tomar decisões firmes, já que muitas vezes se arrependem e voltam atrás na decisão tomada
    • Crenças: Eu causo dor e magoo as pessoas, Não sei como terminar as coisas, Nunca faço as coisas direito, Mudar e começar algo novo é inseguro, Não sei qual o melhor caminho
  • Complicações menores e transitórias com o cordão umbilical ao redor do pescoço
    • Se houver perturbação da respiração durante alguns segundos/minutos – adultos com dificuldade de deglutição, problemas de fala, problemas recorrentes de garganta
    • Tendem a sentir-se “estranguladas” nas relações
    • Qualquer acontecimento diferente causa-lhes medo
  • Prematuros (< 37 semanas) – dias terão pouca diferença, mas semanas ou meses têm grande impacto
    • Pessoas precipitadas e irrequietas
    • Crenças: Sou frágil e indefeso, Sou inseguro, Preciso adiantar-me e ser perfeito para ter sucesso
  • Prematuros em risco de vida (com dificuldades no cordão, placenta prévia ou pré-eclâmpsia)
    • Psicoses, Esquizofrenia, Comportamentos violentos anti-sociais
  • Parto Pós-Maturo (> 42 semanas)
    • Pessoas não se sentem preparadas para realizar o que seja, têm problemas com o tempo, costumam estar atrasadas, o ritmo delas é mais lento do que o das outras pessoas

Como vêm não há partos perfeitos e (in)felizmente não dá para encomendar nenhum deles 🙂 Cada mulher e bebé têm a experiência de parto que precisam para aprender, evoluir, transmutar, curar ou despertar.

O parto é tudo menos linear e é uma experiência transcendental, mais do que física.

Qualquer dúvida que tenhas em relação a este tema que eu possa ajudar, não hesites!
Escreve-me email ou mensagem privada e com todo o gosto esclareço-te naquilo que souber e puder 🙂

[adaptado do livro “A vida secreta da criança no Útero” de Thomas Verne e John Kelly e adaptado de uma compilação/resumo de “Psicologia Peri-Natal” de Terapia de Renascimento]
[fotografia retirada de http://parenting.firstcry.com/articles/benefits-of-normal-delivery-for-mom-and-baby/]