Quando me perguntam como descobri o meu caminho e esta paixão por ser Doula, tenho sempre dificuldade em lembrar-me quando descobri o que é ser Doula. O momento em que ouvi pela primeira vez esta palavra ou li pela primeira vez a sua definição.

Lembro-me do site brasileiro que descobri na altura e li de uma ponta à outra – A bibliografia da Doula. Lembro-me de ver o conteúdo da formação de Doulas e sentir um entusiasmo desmedido e lembro-me também de, no final da formação, pensar “E agora, como vou pôr isto em prática?” Parecia-me tudo tão vago…

Cada vez que sei que amigas minhas não sabem o que uma Doula faz, sinto-me totalmente incompetente. É certo que não ando a pregar o meu trabalho pelas ruas, mas pessoas que me são próximas e não sabem, só mostra que não estou a passar a informação da forma mais eficaz.

Ontem, durante um jantar de amigos, um dos homens presentes disse “Então qualquer mulher que se queira preparar para o parto, deve fazê-lo com a Doula!” Yeaaaahh, desta vez a mensagem passou!

Na verdade, deve fazê-lo com quem quiser e de acordo com o que precisa. Mas é fundamental que saibamos, socialmente, o que a Doula faz e o que não faz!

Actualmente vivemos, na minha perspectiva, muito isolados. Cada um focado na sua vida, nos seus objectivos, na sua agenda, deixando a partilha de vida de lado.

Quantas de nós fala com as suas avós sobre os partos que elas tiveram? Quantas de nós sabe como nasceu? Com pormenores? O que a outra mulher sentiu quando pariu? Como é um parto? Que fases tem? Como acontece?

Quando a gravidez chega, algumas mulheres sentem necessidade e vontade de se prepararem para o parto e procuram informação de como se faz. Procuram saber o momento em que se vai para o hospital, como se deve posicionar o corpo, como se respira no momento, como se faz força? E este tipo de preparação existe. Mas o que acontece é que a mulher, em vez de reaprender a ligar-se a si, ao seu corpo e às suas necessidades em cada momento, liga-se à teoria. O intelecto comanda. E no parto, isso é tudo o que não queremos!

A preparação para o parto com uma Doula é, normalmente, informativo (com base em evidências científicas), emocional (O que sentes com isto? O que precisas neste momento? Que padrões emocionais trazes e para onde te levam?) e prático (massagem para alívio de desconforto, yoga, caminhada, alimentação). 

Quando, na nossa sociedade, estamos afastadas de nós próprias e das mulheres da nossa família, do nosso círculo, com quem falamos sobre as questões que nos inquietam? Que nos preocupam? Que nos amedrontam nesta fase específica da nossa vida?

As amigas que não estão grávidas talvez não entendam, as amigas que estão grávidas ou já tiverem talvez deem palpites e sugestões que não encaixam com a nossa experiência, e as mães talvez julguem “Eu aguentei as pernas inchadas. Como tu não aguentas?”. A Doula é também a pessoa neutra, que não opina nem julga. Ouve e devolve. Procura informação e partilha. Apazigua e acolhe. E isto é muito prático. Não é transcendental.

Tantas vezes que só pelo facto da grávida assumir e expressar “Tenho tanto medo do Parto!”, o medo se torna menos forte. Mais fácil de lidar. A Doula ajuda a grávida a encontrar as ferramentas que tem para lidar com o que vier – Medo, Ansiedade, Alegria, Euforia, Zanga, Tristeza…

Na preparação para o Parto, a Doula dá informação ao casal e ajuda-o a sentir o que para si faz mais sentido. A conhecer as alternativas e a escolher de forma consciente e informada. 

Quando está de chamada para Parto, a Doula tem o telefone ao seu lado dia e noite a partir das 38 semanas de gestação, aceita convites avisando que pode ter de sair no início, meio ou fim, tem o depósito de gasolina cheio, a mala de Doula no carro pronta e não sai da zona de residência por mais do que um par de horas. Quando é chamada vai a voar até chegar ao casal. No parto, a Doula protege o ambiente mantendo-o tranquilo, amoroso e feminino, ajuda o pai a lidar com o stress, ajuda a mulher a manter-se ligada a si mesma e ao seu bebé e reforça as suas escolhas e vontades. Ajuda a lidar com a dor e recorda-a que, sendo mulher, tem tudo o que precisa para parir o seu bebé. 

O Pós-Parto é também preparado durante a gravidez. Os cuidados à mulher no Pós-Parto, a Amamentação, os cuidados ao Recém-Nascido, a alimentação, a dinâmica familiar…Tudo isto é falado e preparado durante a gravidez, para que, depois, não seja uma surpresa e não exista stress extra. 

No Pós-Parto a Doula acompanha a mamã na Amamentação, pode preparar comida, ajudar em algumas tarefas de casa, ser um reforço enquanto os pais descansam, ajudar com filhos mais velhos e integrar a experiência de Parto. Mais uma vez, ser uma escuta activa e neutra. Estar disponível para o que for preciso, sem justificação ou incómodos.

Por tudo isto, TODAS AS FAMÍLIAS deviam ter uma Doula. Devia ser um dado adquirido. O Sistema Nacional de Saúde devia oferecer a cada família uma Doula. Uma pessoa com vocação e paixão, disponibilidade e conhecimentos para apoiar o casal neste momento da sua vida. Se assim fosse, tantas mas tantas coisas melhoravam na nossa sociedade!

Um dos factores que uso para classificar o meu trabalho é olhar para a relação dos pais entre si durante e após a gravidez, olhar para a experiência do parto e saber como a mulher se sente com o parto que deve, olhar para a relação dos pais com o bebé e saber o seu vínculo, olhar para a eficácia e prazer da amamentação, olhar para o bebé (é tranquilo? agitado?) e olhar para o pós-parto (como está a ser vivido? em tensão? com tranquilidade?).

E aos poucos, o que era vago, tornou-se muito claro e objectivo. E que efeitos têm estes indicadores a longo prazo? Um casal feliz, uma mulher empoderada depois do parto, um bebé tranquilo, uma família unida e atenta entre si. Que efeitos tem isto na nossa sociedade? Conseguem imaginar o tamanho do que me move? 😀