O meu Parto MARAVILHOSO – Nascimento do Vasco (parte I)

Sei que muitas de vocês estão em pulgas para saber como tudo aconteceu. E eu estava desejosa de escrever tudo e partilhar.

Entre várias lições que esta experiência de Parto me trouxe, uma delas é a certeza que a minha missão passa por partilhar. É verdade que me preparei e trabalhei para viver uma experiência de Parto Positiva e Empoderada mas, depois de a viver e comprovar que é possível e que parir pode ser mesmo maravilhoso, estou ainda com mais força para gritar aos sete ventos que parir é uma benção e que pode ser uma experiência positiva, activa e muito feliz!

É com muita realização e felicidade que vos conto toda a nossa experiência de Parto.

Aviso já que vai ser uma história longa e por isso dividida em duas partes, contada ao pormenor e escrita para o Vasquinho (como não podia deixar de ser).

“Dia 16 de Outubro de 2018 – Terça-feira [39 semanas]

Ontem tive mais contracções do que o habitual, mas apenas barriga dura. À noite, quando acordei para chichi, tive 1 hora acordada e tive 5/6 contracções com moínha no baixo ventre, como na fase pré-menstrual. Agora pela manhã tive mais 3 mas mais espaçadas. A sensação dura uns 10/12 segundos.

Estou muito contente por ver o meu corpo a agir e tudo a preparar-se. Acredito que seja mais suave para ti também, assim. Estou muito entusiasmada por te conhecer meu amor querido. Está quase!”

“Aquelas foram mesmo as primeiras contracções. Na manhã de Terça-feira, dia 16, fui ao shopping com os avós aproveitando para andar, comprar um presente para o papá (compramos umas meias muito bonitas e deixamos escondidas no roupeiro para ele ver quando chegasse a casa e nós ficassemos no hospital) e água de côco para manter a hidratação durante o trabalho de parto.

Durante a tarde as contracções vinham de 30 em 30 minutos e tinham duração de 20/30 segundos com alguma moínha cá em baixo. Estive a escrever os papéis com frases empoderadoras e a ler o Guião de Preparação para o Parto, imaginando o cólo do útero molinho, permeável e fino. Ao final da tarde ainda fiz caminhada de 40 minutos.

O pai foi jantar com os avós ao Shopping e eu preferi não ir para me alimentar bem e descansar. Ainda me deitei na cama mas as contracções estavam a aproximar (15/15min) e deitada não era nada confortável. Fui para o sofá e dormi sentada, apoiada com almofadas e tapada com a manta. Começaram a aproximar ainda mais e já eram 10/12 min com 40 seg de duração.

Quando a sentia vir chegava-me à beirinha do sofá, só apoiada com o cóccix e de pernas abertas. Respirava, focava-me totalmente na respiração e a contracção ia embora. Voltava a encostar-me para trás e adormecia. Dormia mesmo! Até à contracção seguinte.

O sol chegou e tudo se mantinha assim. O rolhão mucoso começou a sair. Consegui apanhar um bocado na sanita e fotográfa-lo. Ahah. Falei com a Márcia a actualizá-la. Perguntou se queria que viesse. Achei cedo. Ainda eram espaçadas e não sabia se iam manter-se assim muito tempo ou não. Combinamos que ela iria dar aula às 11h e depois voltavamos a falar. Eu e o papá fomos à praia ainda, caminhar um pouco e prepararmo-nos para a tua chegada.

Enquanto isto a tia Maria perguntou se queríamos saber se a amiga enfermeira estava no Hospital de Cascais e estava. Ficava até de manhã. Boa! Alguém conhecido calha sempre bem 🙂

Disse-me que a maternidade estava cheia mas tinha uma vaga, que se fossemos em breve era mais seguro.

Hmmmm, não. Não iria motivada pelo medo de não ter vaga. Se não tivéssemos, logo haveria uma solução.

À hora de almoço de Quarta-feira, dia 17, as contracções tornaram-se mais longas e intensas. Mantinham-se nos 10 minutos de intervalo mas já chegavam aos 50/60 segundos. Enquanto preparava o almoço, as contracções eram vividas apoiada na bancada e agachada o máximo possível. Disse à Márcia para vir quando pudesse e quisesse. Estava na altura.

Quando ela chegou fomos dar umas voltas à nossa casa e a casa dos avós e as contracções iam e vinham.

As obras a acontecer no teu quarto e nós na sala. Entre sofá, bola, cadeira…os agachamentos eram sempre a melhor forma de aliviar. 10 em 10 minutos, 1 minuto de duração e às vezes mais. Fiz homeopatia para manter as contracções eficazes e respirava.

Começou a chegar a noite e a minha urgência em ver e comprovar resultados. A avó Ana veio ver-nos e disse que devia estar quase, que achava mesmo que eu era boa parideira. Mas já estavamos assim há tanto tempo e nunca mais! Continuava a perder rolhão e essa era a única prova que tinha de trabalho a acontecer.

A tia Maria disse ao pai que era melhor irmos porque, há tanto tempo com contracções, devíamos avaliar os teus batimentos cardíacos. Eu tinha a certeza de que estavas bem. Mas queria conhecer-te e confirmar (ou não) que era capaz de te fazer nascer.

A impaciência falou alto. Estava cansada de estar na mesma. Queria mudar de ambiente e ver alguma coisa a acontecer.

Eram por volta das 20h quando resolvemos ir para a maternidade. Estava totalmente consciente da minha escolha e assumia a responsabilidade disso. Imaginava que colocariam prostaglandinas ou oxitocina localmente, por exemplo. E aceitava isso.

O pai estava um bocadinho tenso e foi bom irmos. A Márcia garantiu que a decisão era consciente e perguntou-me de 0 a 10 como eram as contracções. “5” – respondi. “Sei que estou numa fase inicial mas quero ir.”

Chegamos pelas 21h, fui avaliada e tinha 2 cm de dilatação. “Ok, está a acontecer…”

A médica disse que podia fazer Paracetamol e para voltar se tivesse sinal de fase activa ou algum sinal de alarme. Disse-me que o cólo estava óptimo e que podia ser a qualquer altura e que tu estavas bem posicionado. Fizemos CTG e tudo ok. Dormitei lá durante o CTG e só queria vir para casa dormir como deve ser.

Chegamos a casa um pouco frustrados mas por outro lado, muito grata por não ter ficado internada. Estava onde queria e agora com 2 informações importantes:

  1. Tu estavas bem.
  2. 2 cm de dilatação

Tomei um bom banho, pijama quentinho, saco de água quente no baixo ventre, mantas e volta para o sofá.

Desta vez as contracções eram mais fortes e tinha mesmo de me agachar. Respirava umas 4 ou 5 vezes em cada uma. Pus mantras a tocar a noite toda e era tão bom quando acordava com uma contracção ouvir aquela vibração e aquelas palavras. Ia vendo as horas conforme ia conseguindo e sabia que a cadência se mantinha: 10/8/7 min de intervalo, 60/70 seg de duração.

Dormi novamente entre contracções e cheguei a sonhar!! (Como é que é possível? Realmente a intensidade das contracções equilibra com o estado de relaxamento logo a seguir.) Graças a Deus que tenho este dom, esta facilidade em dormir. Ahah

Amanheceu e assim continuamos. Eu tinha imenso frio e só estava bem enrolada na manta com dois pares de meias. A Marina tinha trazido umas gotas homeopáticas para ajudar com as contracções e fui tomando ao longo da noite e manhã.

Quando a Márcia voltou, deviam ser umas 10h, colocou-me sementes na orelha para ir fazendo acupressão. Não me disse para o que era e eu também não perguntei. Fez chá de especiarias e cacau e eu ia alternando entre isso e água.

Sentia-me muito diferente do dia anterior. Estava letárgica, sonolenta, interiorizada e já sem grande noção do redor. Só de nós os dois. Os olhos semi-cerrados e não queria falar nem pensar. Só respirar nas contracções, balançar as ancas, agachar e dormir sempre que possível.

Aproveitava a bola durante as contracções, o toque e a massagem deles. Era delicioso e não apetecia parar.

Voltei a falar em ir para o hospital deviam ser umas 11h e pouco. Nessa altura o pai perguntou-me “Dizes isso porque achas mesmo que está na altura ou por outra razão?” Respondi-lhe, meio desistente, que já não sabia o que fazer. Que no hospital acontecia alguma coisa de certeza. Eles que tratassem. Que se calhar sozinha não conseguia parir. Vinham-me pensamentos como “A minha cunhada deu entrada sem contracções próximas e passadas 10 horas tinha o bebé cá fora.” Exemplos destes iam surgindo na minha cabeça. O papá manteve-se, acreditou em mim e disse que eu estava óptima. Valorizou o que estava a acontecer e encorajou-me a continuar.

A Márcia sugeriu caminharmos um pouco e apanhar ar mas eu sentia-me sem energia. Disse-lhe que podia estar a boicotar. A tentar dormir sempre que possível para chegar uma altura em que, por magia, abria os olhos e já estava. Um bocadinho contrariada mas a saber que realmente isso podia ajudar, fui trocar de roupa e, enquanto olhava para barriga no espelho pensava “Podes ir. Já não preciso de ti. Quero o meu bebé!”

Enquanto me vestia (10 min no máximo) tive umas 3 ou 4 contracções. Realmente estar de pé e andar aumentava a frequência e era isso que precisávamos.

Durante uma contracção vi um bocadinho do teu olho e cabelo e chorei de emoção. Precisava de me lembrar de ti e de me manter ligada a ti. Dizia-te que estava quase, que não tarda íamos conhecer-nos e para manteres o queixinho junto ao peito para ser mais fácil o encaixe no cólo do útero e a tua descida.

A sensação que tinha durante as contracções estava a mudar. Sentia pressão no cóccix e estar sentada na bola era agora impensável. Os agachamentos também já não ajudavam e ficava melhor de pé, apoiada e inclinada para a frente (na mesa, no parapeito da janela ou nas mãos do pai).

Mal começava uma contracção vinham os dois, as quatro mãos apoiar-me, massajar-me e tocar-me. E era tão bom!

Voltamos para casa e a sensação estava a descer e a espalhar-se pelas ancas e pernas. Disse ao pai para comermos o Miso que tínhamos feito porque a ida para o hospital estava próxima. Tive mais uma contracção enquanto comia e, quando acabou, disse-lhe imediatamente “Temos de ir agora!”

Preparamos tudo: mala de maternidade, saco com comida, homeopatia no bolso do pai, documentos, exames e bola de pilates.

A Márcia voltou a perguntar “De 0 a 10?” “7!!”

Não sabia bem como ia fazer a viagem de carro nem aguentar lá a logística da triagem, mais espera, etc. Achei mais sensato irmos naquela altura ainda que aguentasse mais um bocadinho em casa. Segundo a minha percepção, devia estar com uns 5 cm de dilatação.

No caminho entre Janas e Cascais tive umas 4 contracções. Olhei para o relógio do carro e vinham de 4 em 4 minutos e eram longas. Agarrei-me ao banco, respirei e pronto. Menos uma.

(Continua no próximo post!)

Fotografias espontâneas tiradas pela nossa Doula Márcia Sampaio <3