Quando a gravidez surge e iniciamos acompanhamento no Centro de Saúde e/ou com Obstetra, vamos começando a criar um calendário mental com as análises e exames que temos de fazer. Mesmo estando dentro da área e este ser um assunto comum no meu dia-a-dia, posso dizer-vos que quando me calhou a mim, como grávida, houve momentos em que achei que era muita informação, muitas datas e muitos exames. O que fiz, para tirar este peso dos ombros, foi passar para um papel as semanas em que cada coisa tinha de ser feita e usar o evitamento positivo, que é uma estratégia de psicologia que consiste em definir uma data a partir da qual voltas a pensar num determinado assunto.

Por isso, se estava com 7 semanas, não ia perder tempo a pensar nas análises que faria (ou não) nas 28 semanas.

Outra coisa que me ajudou foi a estratégia usada pela enfermeira no Centro de Saúde. Em cada consulta que fazia escrevia no final do meu boletim de grávida os próximos passos e as datas reais:

Ou seja:

Análises:

< 13 semanas

24 semanas e 28 semanas –> 10 a 24 Julho

32 semanas e 34 semanas –> 28 Agosto a 11 Setembro

Ecografia:

12 semanas

20 semanas e 22 semanas –> 12 a 19 Junho

30 semanas e 32 semanas –> 21 a 28 Agosto

Assim sabia sempre para quando marcar os exames e com que antecedência precisava pensar nas coisas se tivesse de decidir algo, como no caso da Vacinação da Tosse Convulsa e na Prova da Tolerância à Glicose (PTGO) para diagnóstico de Diabetes Gestacional.

As análises comuns de avaliação da Gravidez e as Ecografias sabia que ia fazer. Mas a Vacina e a PTGO ainda não tinha decidido. Isto porque, ao contrário do que muitas grávidas pensam, não somos obrigadas a fazer.

A gravidez deve ser acompanhada por Profissionais, claro! Enfermeira (caso seja gravidez de baixo risco) ou Médico de Família ou Obstetra conforme a escolha de cada um.

A vacinação e a PTGO são escolha da grávida e do casal. Com informação fidedigna e baseada em evidências científicas, com consciência e empoderamento!

O que venho partilhar convosco hoje é a nossa escolha em relação à PTGO. (Já escrevi sobre Diabetes Gestacional e PTGO propriamente dita aqui e aqui).

Para mim não fazia grande sentido fazer esta análise e estava quase certa, desde o início, que não iria fazer. No entanto, mais perto da altura de decidir, procurei informação, li, senti e coloquei-me várias questões:

  • Em que consiste a análise?
  • Qual é o objectivo?
  • O que é diabetes gestacional?
  • Quais são os factores de risco?
  • Quais são as consequências para o bebé?
  • Quais são as consequências para mim?
  • Como é o meu padrão alimentar?
  • Se o resultado der positivo, o que faço?
  • Se o resultado der negativo, o que faço?
  • O que sinto em relação à análise?
  • Holisticamente, o que representa diabetes gestacional? Faz sentido eu apresentar essa alteração?

No meu caso específico havia algumas coisas que me deixavam na dúvida:

  1. Na primeira consulta de Naturopatia que fiz (há 2 anos) ser-me dito que o meu pâncreas estava um bocadinho preguiçoso
  2. Num rastreio casual de medição da glicémia depois de um treino o valor estar um bocadinho elevado

Perguntava-me também:

  • Estou a resistir à análise porquê?
  • Porque acredito que me causa mais stress do que benefícios?
  • Porque tenho medo do resultado?

Para mim foi muito importante ter tempo para olhar para tudo isto. Ir avaliando e sentindo o que surgia e ser muito honesta comigo mesma.

Eu não achava relevante fazer a análise, ainda por cima sabendo que Dr. Michel Odent diz que a Diabetes Gestacional não é patologia mas sim uma alteração fisiológica consequente da gravidez.

Mas por outro lado podia estar a evitar ser confrontada com a verdade – “SIM, tens níveis altos de glicémia porque comes mais açúcar e hidratos do que o que devias!” (E a culpa associada?)

Bem, antes da decisão final fiz 3 coisas:

  • consulta de Naturopatia e avaliar, naquele momento da Gravidez, a resposta metabólica do meu corpo – estava tudo OK
  • análise de glicémia em jejum – dentro dos parâmetros
  • registar durante uma semana tudo (TUDO) aquilo que comi – olhando para o todo e destacando os “pecados”, estava tudo muito equilibrado

Resolvi então não fazer a análise. Assumi o compromisso comigo mesma de ser disciplinada na alimentação, de evitar açúcares refinados e muitos alimentos processados, ter atenção à quantidade de fruta que comia e de que forma (faz diferença comer a fruta inteira ou em batidos e sumos!) e nos intervalos das refeições. Manter o exercício físico e confiar.

Para mim era claro que se o resultado fosse positivo eu não iria medir a glicémia a toda a hora e muito menos iria fazer insulina. Por isso, se o resultado fosse positivo, a minha estratégia seria unicamente cuidados redobrados com alimentação e manter exercício físico. Pois bem, sendo assim, podia começar logo a ter esses cuidados em vez de esperar por um resultado analítico.

Quando disse ao obstetra a minha decisão ele alertou-me apenas para as consequências de altos níveis de glicémia constantes no feto. Se eu estava consciente disso, então tudo bem. Sugeriu ainda que, de vez em vez, avaliasse a glicémia depois das refeições. O que ele disse foi que a insulina é produzida em menos quantidade e, por isso, quando sujeitamos o organismo a níveis altos de açúcar, não temos a certeza que a insulina seja suficiente para degradar aquela quantidade. E é isso que faz os níveis manterem-se altos e é isso que tem consequências (que podem ser graves) para o recém-nascido. Então, se eu medisse a glicémia depois da ingestão alimentar, podia avaliar a resposta real do meu corpo.

Achei a sugestão óptima e adoptei-a! Das medições que fiz em alturas/refeições diferentes do dia, o valor estava normal. E isso ainda me descansou mais.

Neste momento, com 32 semanas, estou muito tranquila em relação à minha decisão de não fazer a análise da PTGO e pronta para assumir qualquer consequência disso.

Partilho a nossa experiência essencialmente para incentivar à procura de informação, ao empoderamento e à escolha consciente! Como podem ver há muitas questões envolvidas. Não podemos olhar para uma decisão destas com a leveza do “Faço ou não?”

Há questões biológicas, fisiológicas, éticas e altamente pessoais. Quando tu assumes que vais ou não vais fazer determinada coisa, tens de estar preparada para as consequências disso.

Quando o meu médico me disse “Sabe que altos níveis de glicémia na mãe podem levar a paralisia cerebral no recém-nascido assim que é cortado cordão umbilical?” Eu não fazia ideia disto! Não deixei que o medo me contagiasse mas fui pesquisar, fui informar-me e foquei-me nas consequências.  Qual é a probabilidade disso acontecer? Que factores estão por trás disso? E juntando TODA esta informação e o que sentia em relação a esta análise eu decidi.

Deixo-te alguns links que foram importantes nesta busca de informação:

https://www.dgs.pt/…para-a…/circular-normativa-n-09dgcg-de-04072002-pdf.aspx

https://www.apdp.pt/diabetes/a-pessoa-com-diabetes/o-diagnostico-da-diabetes/prova-de-tolerancia-a-glicose

http://evidencebasedbirth.com/does-gestational-diabetes-always-mean-a-big-baby-and induction/

http://evidencebasedbirth.com/gestational-diabetes-and-the-glucola-test/

Guia Para Atenção Efetiva na Gravidez e no Parto,  Murray W. Enkin & Marc J. N. C. Keirse & James P. Neilson & Et Al ;

https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(09)61555-5/fulltext