Saltitando de um site para o outro, fui parar ao blog da Rita Ferro Alvim. Comecei a ler a carta que escreveu à sua filha Madalena que ainda está na barriga e daí passei para as “Cartas aos filhos”.

Esta frase fez-me vir aqui escrever:
“Vou continuar a tentar não julgar comportamentos, mas estar atenta a necessidades. São a satisfação delas que resolvem comportamentos.” Rita Ferro Alvim

É tão isto! As crianças são tão puras na sua forma, tão honestas e tão transparentes que quando algo corre menos bem no seu comportamento, a primeira coisa que eu penso é: “O que tu precisas que não está a ser satisfeito?”
E isto é válido para todas as idades. O meu sobrinho Bernardo, tem quase 2 anos, e tem sido para mim um exemplo lindo disto!
Ele está sentado à mesa a almoçar, segura sozinho na colher e vai levando a comida à boca. Às vezes, por ir mais torto, a comida cai e a minha tendência é segurar na colher e endireitar. Se eu fizer isto como reflexo e por isso me sobrepor a ele, ele costuma puxar a colher no sentido contrário. Se por outro lado, eu agir com calma perguntando-lhe se posso ajudar, ele larga a colher na minha mão e deixa-me orientar. 
As crianças entendem o que lhe dizemos. Às vezes não sabemos comunicar com elas, às vezes não é fácil encontrar os termos mais adequados e achamos que dizer “Agora não dá.” é igual a dizer “Agora não dá, porque tenho que fazer x.” 

Ou, ele quer fazer uma brincadeira específica nossa em que tenho de o pegar ao colo e imitar um cavalo (ahah) e, estando ele no chão, agarra-se às minhas pernas e faz um som de chamamento, fecha o punho e mostra-me o que quer (na brincadeira vamos os dois com os punhos fechados como se estivessemos a galope! :p). Quando eu finjo que não entendo o que me pede, ele começa a ficar zangado, a gritar mais alto, a mostrar o que precisa e quer naquele momento. Se for possível fazermos a brincadeira fazemos, se não for, digo-lhe que sei que quer fazer de “Cavalinho” mas agora não dá porque…..e tudo bem. Ele entende!

O conceito (não sei se se pode chamar assim) da Parentalidade positiva está em mim desde que me lembro. Se há coisa da qual não tenho dúvida é que sou uma excelente Pedagoga. Não sei porquê nem de onde vem, mas garantidamente faz parte de mim. Eu consigo criar empatia com as crianças muito rapidamente. Consigo pôr-me no seu lugar e sentir a frustração que sentem, ou a alegria, ou a tristeza…isso é fácil para mim e compreendo que não seja fácil para todos. Obviamente 🙂
Mas há alguns conceitos, chavões que eu penso que só por si ajudam na relação adultos/crianças.



1. “Temos igual valor.” – ouvi isto através da Mia [http://www.mindfulnesseparentalidade.com/] e é uma boa chamada de atenção.
A tristeza que eu sinto é igual à tristeza que uma criança sente. A frustração que eu sinto é igual. Não me apetecer comer mais ao almoço não é igual à falta de apetite de uma criança? Porque a criança é frequentemente julgada e eu não? Ou desprezada porque está triste e não há razões para isso? E quem sou eu para validar a emoção de alguém? A criança sente. Ponto. Se é porque o urso ficou em casa, é exactamente por isso que ela está triste! 


2. “Olhar para as atitudes das crianças com curiosidade.” Também através da Mia.
Este conceito vai de encontro à frase da Rita. Não julgar. Olhar com curiosidade é olhar do ponto de vista neutro. Eu não estou a categorizar, nem a balançar para lado nenhum. Não é bom, nem mau, nem alto, nem baixo, nem desproporcional, nem pateta. Nada. Olho, perguntando: “Porque está o meu sobrinho a gritar assim?” “O que se passa com ele para ter esta atitude que não é habitual nele?” “Porque se deitou para o chão a chorar?” “O que se passa?” “O que está por trás deste comportamento?” “Que emoção está na base desta expressão?” Eu sei que num momento de crise, não é fácil ter discernimento para observar. A tendência é reagir perante a acção de forma a acabar com ela. Claro que há contextos e que nem sempre é possível agir em vez de reagir. Mas ter estes chavões mentais por perto pode realmente fazer a diferença 🙂



Experimentem ouvir o que dizem à criança, a forma como dizem, o som com que dizem, e imaginem dizê-lo ao vosso amigo mais querido.

Partilho um episódio a que assisti ontem de manhã: Está a chover, a mãe quer rapidamente colocar o filho dentro do carro para não apanharem chuva e diz: “Entra!” E 3 segundos depois grita “Entra, Porra!!” 
Mesmo que a criança quisesse fazer o que a mãe MANDOU a primeira vez, não tinha tido tempo.
Se esta senhora agisse assim com o seu melhor amigo? 
Mas não. Aquela criança é filha dela e ama-a mais do que tudo! “Tudo bem ela gritar comigo quando eu estou a fazer o que ela acabou de mandar. Na escola, quando pedir um brinquedo ao meu amiguinho faço igual – “Dá-me!” … “Dá-me!! Porra!” ;)” (Para além de que esta criança, se isto acontecer frequentemente, vai aprender que por mais rápido que seja, não chega. A sua forma de fazer as coisas, neste caso – entrar no carro, não é suficientemente boa.)

Como a querida Fátima Marques disse no Encontro Nascer em Amor, o que há a fazer à mãe é tratá-la como gostavamos que a criança fosse tratada. Os ciclos de violência são difíceis de auto-detectar e assumir e, mesmo detectados são difíceis de quebrar. Os gritos ou as repreensões desproporcionadas não acabam por gritar ou repreender os pais. Acabam quando os educadores e cuidadores sentirem, na pele, o que é ser bem tratado, bem cuidado, amado, falado com amor. 

As crianças seguem mesmo o exemplo das pessoas que estão à sua volta, em quem mais confiam, que são o seu mundo. É através de nós, educadores, que as crianças aprendem e se constroem. 

Na minha opinião, o primeiro passo para uma parentalidade consciente e positiva é estar atento. 
Estar atenta a mim enquanto cuidadora e educadora, atenta às palavras que digo, atenta às reacções que tenho, atenta ao volume da minha voz, atenta à expressão facial e corporal. Atenta, apenas. 🙂
Depois disso, detectando o que mais gostamos e menos gostamos na nossa forma de educar, aos poucos, mudar. Escolher a intenção com que fazemos. 
Qual o maior propósito? O que quero ensinar? 
Como a Mia sugere também, colocar a questão: “Como gostaria que as minhas crianças me descrevessem no dia da minha morte?”