O ano passado tive uma surpresa muito boa quando um casal muito querido e amigo decidiu ter uma doula. Mais ainda, quando me escolheu como doula. Ele, meu amigo há uma década. Ela, minha amiga, médica e anestesista. Ahah.

Enquanto decidiam, elaboraram uma lista de perguntas e enviaram-me. Para mim, foi maravilhoso!! Um exercício que achei mesmo interessante e que nos permitia começar tudo com uma base completamente honesta. O que eles queriam, o que eu podia dar. E se esta proximidade estragasse a nossa amizade? Seria isso possível? E a confidencialidade de Doula? E se o que eles queriam, fosse contra aquilo em que acredito? Ou o contrário?

Durante a formação de Doulas, fiz um exercício que me colocou em contacto com perguntas do género “Que tipo de mulheres quero eu acompanhar?”, “Que decisões o casal pode tomar que vão contra os meus princípios?”, “Até onde eu acompanho alguém?”

Por exemplo, se uma grávida quiser Cesariana Electiva, como eu me sinto com isso? Se uma grávida continua a fumar depois de ter informação sobre os malefícios do tabaco durante a gestação, é tranquilo para mim continuar a acompanhá-la? Se uma grávida me chamar para a acompanhar numa Interrupção Voluntária da Gravidez. Como eu me sinto? É possível para mim fazer esse acompanhamento? E tantas outras questões…

Esta grávida minha amiga, médica e anestesista colocou-me a questão “É muito provável que eu queira epidural. Como isto é para ti. Vai contra os teus princípios?”

Quando reflecti sobre as suas questões e tive oportunidade de responder dei conta que, actualmente, acompanho todo o tipo de mulheres, com todas as escolhas que possam surgir.

Se uma grávida fuma e desconhece os malefícios para o seu bebé, enquanto doula e se ela quiser, dou-lhe essa informação. Se, depois de ter essa informação, ela continuar a escolher fumar, vejo com ela, se ela quiser, que razão está por trás dessa escolha. O que a leva a continuar com este hábito? Precisa de ajuda para quebrar com o hábito? Creio que uma mulher, grávida, conectada emocional e energeticamente com o seu bebé, sabendo dos malefícios do tabaco, facilmente quebra com esse hábito. Se não quebra, algo subconsciente e/ou emocional existe por trás disso para não permitir escolher o melhor para si e para o seu bebé. Então, faz parte do meu trabalho (porque eu assim o escolho), acompanhá-la nisso.

E o tabaco é só um exemplo.

Se uma grávida quer Cesariana Electiva e desconhece o Parto Vaginal, faz parte do meu trabalho, passar-lhe essa informação, se ela assim o quiser. Tendo informação, a escolha continua a ser a mesma? O que está por trás disso? Medo? Medo de quê? E continuo a acompanhá-la. E se no final a decisão for a mesma, é possível para esta grávida, criar empatia com o bebé e sentir as diferentes formas de nascer (vaginal, vaginal intervencionado, na água, cesariana com início de trabalho de parto, cesariana electiva)? E sentindo empatia com o bebé, sentir que mesmo cesariana electiva pode ser humanizada e quanto mais suave for a saída do útero melhor para o bebé? E que é possível pedir aos profissionais de saúde para descreverem a saída ou colocar um espelho para que ela possa ir vendo? E que mal nasça, o bebé pode vir para o seu colo imediatamente?

O que respondi a este casal foi isto mesmo.

– Vou estar ao vosso lado independentemente das vossas escolhas. É exactamente esse o meu trabalho como doula. Questionar-vos sobre as vossas escolhas para que possam encontrar as certezas. Para que sintam “É mesmo isto que quero. É isto que quero sabendo os benefícios e os riscos.” E durante a gravidez e durante o parto poderem estar tranquilos com as vossas decisões.

Nos acompanhamentos que faço sou o mais neutra possível. Eu apenas dou informação. Mostro todas as alternativas possíveis. E é exactamente isso que defendo: saber que existem alternativas!

Que não tens de ir para o hospital se não quiseres, porque o parto em casa existe. Que podes ir para o hospital se lá te sentes segura, porque as maternidades existem. Que existem várias formas de alívio de dor, não apenas uma. Que existem várias posições para dilatação e expulsivo, não apenas uma. Que podes comer e beber se quiseres, porque de acordo com estudos recentes, é mais benéfico do que estares com fome. Que podes fazer um plano de parto e levá-lo para a consulta para conversares com o teu médico. Que podes sentir-te mais confortável em ir para o hospital assim que tens sinais de trabalho de parto ou esperar em casa até o trabalho de parto estar em fase activa. Que existem exercícios e dicas que incentivam o bebé pélvico a rodar e podes fazê-los. São tantas as opções, tantas!

E como doula, não me cabe dizer-te se deves escolher x ou y. Cabe-me apenas mostrar-te as opções para que TU (e não a tua médica, a tua mãe, o teu companheiro, a tua vizinha, o teu medo) escolhas! E te sintas confortável e segura com essa escolha. Seja o que for! E é a isto que se chama “Empoderar” <3

[fotografia de Rebecca van Ommen em http://www.beckyvanommen.com/gallery/rebecca_van_ommen_hand_still_life_photography_closeup/]