O meu coração fica pequenino, apertado. A angústia esmaga-me e a emoção de revolta deixa-me pronta para agir, para propor, para mudar.
Como é possível ter uma criança de 5 anos fechada num apartamento com uma grande televisão à frente e um grande telemóvel na mão e um grande tablet sentado consigo no sofá?
Onde estão os adultos nesta altura?
Diz-me “A tratar de assuntos” ou “A dormir” ou “A arrumar a casa” ou …. ou … ou ….
Depois, quando esta mesma criança se apresenta eufórica, completamente excitada, com um grau de energia que nem ela sabe como lidar, ouve-se (provavelmente) dos mesmo adultos “Pára.” “Calma” “Assim não vamos passear onde queres.” “Não te aviso mais vez nenhuma” etc etc etc
Eu fico “doente” com este padrão.
Eu compreendo que nem todas as pessoas tenham a mesma sensibilidade que eu tenho com as crianças, claro que sim. Mas então, eu vou pegar nesta minha sensibilidade para vos mostrar algumas coisas que eu vejo e que vocês, provavelmente, não.
Uma criança de 5 anos tem energia para dar e vender. Ela consegue acordar de manhã cedo, passar a manhã toda a correr, a saltar, a trepar, a brincar, gritar, cantar, abranda o ritmo para almoçar, e ainda nem acabou de almoçar e já está com “pulgas no rabiosque” para sair da mesa e voltar a correr, a saltar, a trepar, a brincar, gritar, cantar.
É normal que assim seja. É saudável 🙂
Agora quando colocam esta criança entre 4 paredes, limitada não só pelo espaço mas também pelo “Não grites.” “Não corras” “Não saltes” “Não….” “Não…..” “Não…..” o que esperam dela?
Ou coloquem-na em frente a uma televisão, com o seu corpo quieto (numa altura da vida em que o corpo PRECISA de se mexer) e em que o cérebro é SUPER estimulado e o que esperam dela? Como vocês, adultos, se sentem quando têm o cérebro super super estimulado? Com trinta mil pensamentos em simultâneo? É difícil não é?
E acham que para uma criança de 5 anos é mais fácil?
Por favor, pelo bem das crianças, olhemos para a nossa vida, para as nossas rotinas, para os nossos comportamentos. Não olhemos apenas para os “maus” comportamentos das crianças como se fossemos nós totalmente alheios a essa realidade.
Peçam ajuda. Informem-se. Tragam as crianças para as vossas rotinas (limpar a casa, fazer o almoço, lavar o carro), elas simplesmente adoram (muitas vezes) ser incluídas nas actividades dos adultos.
Procurem actividades que possam fazer em casa que sejam divertidas para ambos. Divirtam-se. Saiam à rua. Tantas vezes que um só passeio faz toda a diferença. Explorem novos sítios. Inventam. Mas vençam essa inércia cíclica de manter as crianças fechadas em casa sem quase mais nada para fazer se não olhar para o mega ecrâ.
[imagem de Jordan Whitt em https://unsplash.com/photos/b8rkmfxZjdU]